Q&A com Gestores de Fundos Brasileiros

Q&A com Gestores de Fundos Brasileiros


Entrevista para o blog da @femisapien no Medium

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Fale um pouco sobre você, sua estratégia e sobre o(s) fundo(s) que gerencia:

Meu caminho no mercado financeiro começou cedo, aos 15 anos. Em 1999, o Valor Econômico fez uma campanha onde, na assinatura do jornal, ganhava-se uma caneta que valia mais que a assinatura. Não estava nem aí para o jornal, mas gostava de acompanhar o caderno de cotações. No começo de 2000, comecei a ver uma ação que se destacava diariamente. Convenci meus pais a me emprestarem um dinheiro, abri a conta na Hedging-Griffo e comprei tudo em ações da Globocabo (PLIM4). Mal sabia que estava entrando no mercado em uma das maiores bolhas da história. Na tentativa de tentar recuperar o prejuízo da PLIM4 resolvi operar opções da Telemar. Não preciso nem te falar o resultado.

“A vontade de bater o mercado surgiu ali”

A vontade de bater o mercado surgiu ali. Na época, minha prima namorava um dos sócios da Ágora, que me ajudou com algumas dicas de leitura. Dois anos depois, entrei na faculdade de Economia (FEA-USP). Mas o trajeto profissional foi um pouco diferente do que imaginava. Só consegui me dedicar integralmente ao mercado de ações, de fato, em 2014, com a fundação da Avantgarde.

No início, criamos um produto para formar mercado para opções ilíquidas de ações. Esse produto era muito ativo em termos de trading (em função dos ajustes de delta das opções). Isso possibilitou que tivéssemos Bloomberg no escritório, mesmo com um PL pequeno. Em 2015, eles nos convidaram para um evento sobre um paper do Fama & French e como aplicá-lo através da plataforma da Bloomberg.

A partir daí, nosso DNA mudou totalmente para o factor investing. Em agosto de 2019, montamos um FIA exclusivo para executar essa estratégia. Já estava sendo desenvolvida desde 2017 em outro veículo. (e desde o final de 2018 com um perfil long only).

Quais suas referências em termos de outros gestores? Quem são seus ídolos?

Nesses anos de dedicação integral para montar os modelos de factor investing, conhecemos as publicações e trabalhos de diversos gestores e acadêmicos nos EUA que executam essas estratégias com maestria, há décadas, e foram nossos grandes inspiradores nessa jornada. Clifford AsnessAndrea FrazziniJames O’ShaughnessyAndrew AngDavid BlitzPim Van Vliet.

Qual seu livro de cabeceira?

Um dos primeiros livros que li sobre o tema, e que até hoje norteiam na criação e aperfeiçoamento de modelos é o Quantitative Equity Portfolio Management: An Active Approach to Portfolio Construction and Management de Ludwig Chincarini e Daehwan Kim.

Qual foi sua “maior tacada”, qual o racional para o investimento e o que você aprendeu?

Em 2016, o Brexit e a vitória do Trump me trouxeram algumas lições importantes. Existem eventos de conhecimento público cujo resultado pode impactar muito o preço dos ativos. Desde então começamos a monitorar esses eventos e os impactos que ele pode causar no preço dos ativos e qual melhor modo de proteger nosso portfólio. Dado que temos uma gestão quase que totalmente sistemática, nosso poder discricionário se resume a caixa e hedge.

Em 23/01, no mesmo dia que a bolsa local batia recordes de pontuação a cidade de Wuhan foi fechada ao mesmo tempo que o Bernie Sanders se mostrava como o candidato com maior probabilidade de ganhar as primárias dos democratas. Entendi que era hora de começar a fazer um hedge para as eleições americanas e montamos um put spread para dezembro (com a bolsa a 115.000 pontos). Acompanhando o lockdown da China, fiquei ainda mais pessimista sobre o impacto daqueles eventos na economia global. Minha preocupação na época era muito mais com um impacto no supply chain do que em um lockdown global — nunca imaginei isso. Montamos um outro hedge, desta vez direcional. Isso ajudou muito a amortecer essa queda do mercado e acredito que tenha sido um dos melhores trades que fiz na vida.

Qual foi seu maior “mico”, onde você errou, o que aprendeu é o que faria diferente?

Erramos exatamente na vitória do Trump em 2016. Naquela época, ainda formávamos mercado através do nosso portfólio de opções. Estávamos vendidos em volatilidade e o resultado, você já sabe. A certeza da vitória da Hillary era tão grande que nos contaminou ao ponto de não enxergarmos o impacto que teríamos no nosso portfólio. Mesmo em um cenário de probabilidade 80/20, onde você ganha 4% com 80% de chance e perde 12% com 20% de chance, as vezes, é melhor proteger o pior cenário abrindo mão de resultado no melhor cenário.

Qual foi o momento mais difícil da sua carreira como gestor?

Novamente, a eleição do Trump em 2016. Tivemos uma perda de quase 11% no dia seguinte ao da eleição. Era um resultado irrecuperável para um veículo com 8% de volatilidade. Pensamos em encerrar o fundo e vender a gestora. Por outro lado, fomos resilientes e, com a cabeça fria, dias depois, mudamos o mandato do fundo e colocamos nossos primeiros dois modelos de factor investing para rodar dentro do FIM. Comunicamos os cotistas da mudança de mandato que aprovaram por unanimidade. Foi ali, com um erro, que nasceu o que temos hoje. Vejo meu pior momento como o principal fator para me colocar onde estou.

Como você gerencia risco no fundo? Como você controla na prática os principais riscos: de mercado, de crédito, de liquidez, legal, reputacional? Utiliza na prática as métricas tradicionais (VaR, testes de stress, volatilidade, correlação, SharpeSortino)?

Dado tudo que passamos, aprendemos a olhar risco de uma maneira diferente. Nosso olhar para risco é o de entender se os modelos que passaram por backtests estão apresentando resultados consistentes com o que foi apresentado no in-sample e no out-sample. A partir disso eu enxergar se o que foi pensado como produto está aderente, não somente em termos de rentabilidade, mas também de beta, geração de alfa, volatilidade, liquidez e tracking error. Se as coisas fogem muito do observado (base com mais de 20 anos de dados), acende uma luz amarela para nós. Foi muito em função de gestão de risco que hoje temos 10 modelos em operação no fundo com mais de 45 ativos na carteira. Nossa exposição idiossincrática é próxima a zero.

Como você enxerga o cenário atual à luz da massiva recessão de curto-prazo contratada pelos efeitos da Covid-19, da atuação dos governos injetando liquidez nos mercados “com o se não houvesse amanhã” em relação às consequências de tudo isso no curto, médio e longo prazos?

Apesar da minha formação como economista neoclássico, metade dos meus livros de macroeconomia foram rasgados em 2008/2009. Nessas horas, costumo deixar os modelos um pouco de lado e tentar racionalizar os possíveis cenários. Eu acreditava que um lockdown seria extremamente danoso para o comportamento do consumidor. Estava errado. Na China, na reabertura, diversas lojas tiveram vendas de 300–400% maiores que antes do lockdown. Como se os “desejos de consumo” estivessem represados. A China será um grande laboratório de como será o comportamento do consumo ao redor do mundo.

Como enxerga o cenário para o Brasil no curto, médio e longo prazos?

Já com relação ao Brasil eu fico um pouco mais preocupado. Por um lado, viemos de uma das piores crises econômicas de nossa história. Por outro, nossa dinâmica econômica é mais lenta. Os empregos aqui são mais rígidos do que ao redor do mundo. Uma vaga de trabalho fechada demora mais para reabrir. Novamente, vai depender do comportamento de consumo do brasileiro médio. Ainda, temos os impactos constantes da política nessa dinâmica econômica. Apesar da renovação de congressistas em 2018, o establishment ainda é muito forte. Ainda estamos voando com muita nebulosidade.

Conte sobre um momento da sua carreira que se destaca — te inspira nos momentos difíceis, te faz lembrar do que realmente é importante, te orgulha ou te faz dar boas risadas ao lembrar.

A vida é muito mais dura quando você larga uma carreira para empreender. Os custos emocionais, financeiros e físicos são gigantescos. Por diversas vezes você pensa em desistir e voltar ao mercado de trabalho. Mas eu sempre fui muito competitivo e pouco político. Perder nunca foi uma opção para mim, apesar de saber que ela faz parte da vida. Quando estivemos próximos de encerrar as operações da Avantgarde em 2016, eu me perguntava se eu tinha feito o meu melhor, se eu já tinha chegado no meu limite intelectual e emocional. Eu sabia que não tinha ainda dado meu máximo, chegado na minha capacidade. E foi essa persistência aliada a meu perfil competitivo que me trouxe até aqui. Desde o lançamento do fundo, ele esteve entre os top performers do mercado e isso foi consolidado com o episódio do COVID-19. Esse resultado não é fruto apenas do meu trabalho nesses 9 meses de vida do fundo, mas de anos de trabalho.

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