A situação envolvendo os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) emitidos pelo Grupo AIZ trouxe reflexões importantes sobre os riscos do crédito privado e as responsabilidades das partes envolvidas. Esses títulos, emitidos em 03/12/2021 com uma taxa de até IPCA + 7,50%, foram estruturados pela Virgo e distribuídos pela XP Investimentos, que possui interesse financeiro na Virgo, por deter títulos do controlador.
Agora, diante da inadimplência do Grupo AIZ, que buscou um waiver de 10 meses, e da impossibilidade de deliberação sobre o plano de reestruturação devido à falta de quórum em assembleia de credores, é necessário analisar as falhas e as responsabilidades nessa complexa situação.

O Risco do Crédito Privado: Percepção x Realidade
Crédito privado, frequentemente vendido como sendo uma “renda fixa tranquila”, é muitas vezes apresentado de uma maneira que subestima seus riscos. Apesar de promessas de altos retornos, produtos como CRIs apresentam desafios significativos, como inadimplência e falta de liquidez, além de não contarem com cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
Por conta disso, eu opto por evitar esse tipo de investimento tanto para mim quanto para meus clientes. Apesar de tolerar riscos em ações e derivativos, os riscos do crédito privado são muitas vezes subestimados e fora do controle do investidor, o que dificulta a mitigação de danos.
De quem foi a responsabilidade?
A Responsabilidade do Grupo AIZ
O Grupo AIZ deveria ter considerado os desafios inerentes à emissão pulverizada de CRIs. Ao aceitar os termos dessa estrutura, a empresa deveria estar preparada para as dificuldades de comunicação com uma base ampla e fragmentada de investidores. Além disso, é essencial que emissores compreendam as implicações dos contratos firmados, como exigências de quórum para deliberações em assembleias de credores.
A frustração expressa pelo Grupo em relação à falta de quórum reflete uma lacuna em seu planejamento estratégico para lidar com momentos críticos, como renegociações de dívidas.
O Papel da XP Investimentos
Como distribuidora dos CRIs, a XP Investimentos tem a responsabilidade de assegurar que os investidores compreendam os riscos associados. Embora não seja obrigação formal dos Agentes Autônomos de Investimentos (AAIs) mobilizar investidores para assembleias, um acompanhamento mais próximo poderia ter minimizado os problemas relacionados à falta de quórum.
Mas será que existem incentivos para que os AAI façam isso? Os bem intencionados, com certeza não teriam problema e conversar com seus clientes para votar na Assembleia, mas aqueles que fizeram seus clientes comprarem esses títulos (bem arriscados, por sinal) e não querem indisposição com seus clientes, não têm nenhum incentivo para ter qualquer estresse e explicar ao cliente o que está acontecendo, de modo que ele possa votar bem informado na Assembleia.
Adicionalmente, a XP poderia implementar ferramentas digitais que facilitassem o engajamento dos investidores, como plataformas de votação ou sistemas de alertas personalizados. E essa é uma crítica ao mercado inteiro. As Assembleias poderiam ser mais fáceis de se encontrar e entender o que está sendo votado. O modelo atual de votação em assembleias claramente precisa de melhorias significativas – mas isso não é necessariamente culpa da XP.
A Responsabilidade da Virgo como Securitizadora
A Virgo, como securitizadora dos CRIs, desempenha um papel crucial na estruturação e emissão dos títulos. É esperado que a empresa desenvolva modelos viáveis, considerando cenários adversos, como inadimplências. A definição de quóruns elevados e a pulverização dos investidores pessoas físicas de varejo podem ter mostrado a falta de planejamento para desafios práticos como esse.
Além disso, a relação entre a Virgo e a XP levanta preocupações sobre potenciais conflitos de interesses, que podem ter influenciado decisões importantes no processo de emissão e gestão dos títulos. Contudo, é importante deixar claro que o Termo de Securitização do Crédito continha a informação do potencial conflito de interesses – a grande questão é que duvido que alguém tenha lido pelo menos um pouco das 164 páginas (talvez nem a AIZ tenha lido a parte do quórum).
Lições para o Mercado de Crédito Privado
O caso do Grupo AIZ destaca a necessidade de maior transparência, planejamento e comunicação eficaz entre emissores, distribuidores e investidores. Para os investidores, é essencial compreender os riscos envolvidos em produtos como CRIs e CRAs, que não podem ser comparados a outros instrumentos de renda fixa.
Por outro lado, emissores, securitizadoras e distribuidores precisam trabalhar em sinergia para garantir que os riscos sejam claramente comunicados e mitigados.
O aprendizado principal deste caso é que, em operações financeiras complexas, todos os envolvidos têm responsabilidades significativas. A omissão ou negligência em qualquer ponto pode gerar consequências graves para investidores e para o mercado como um todo.
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